segunda-feira, 5 de maio de 2008

O velho comunismo



A revolução comunista, em vez do “novo homem”, criou o sub-homem

London Paperback divulga o lançamento da 2ª edição, na Europa, do novo livro do historiador inglês Orlando Figes, “The Whisperers” (0s Sussurros), sobre os intermináveis horrores da Era Stalinista। Figes tem formado, ao lado de Paul Johnson, o duo de especialistas voltados para a reconstituição e análise da funesta experiência comunista na Rússia Soviética। Seu relato “A People’s tragedy – the russian revolution 1881-1924” (A Tragédia de um povo – A Revolução Russa 1881-1824 - Editora Record, Rio, 1996) – se inscreve, pelo rigor da pesquisa cuidadosamente estruturada, como leitura obrigatória para todos aqueles que desejam saber como a serpente expeliu o ovo e formou o tentacular monstro comunista. Com acesso direto aos arquivos de Moscou, ou pelo menos parte deles, Figes, na transição deste século, se transferiu para a capital russa e entrevistou um sem-número de sobreviventes do stalinismo. Houve resistência, alguns depoentes, em pânico, tentaram se esquivar de qualquer conversa com o historiador pensando que ele não passava de um agente da KGB. No entanto, ainda que temerosos, eles contaram como, há mais de meio século, funcionava a vida privada do homem comum sob a repressão do Estado soviético.

Uma vida, de resto, levada aos “sussurros” por causa do vizinho que, por qualquer indício de “desigualdade”, denunciava ao agente do Partido Comunista mais próximo (“comissário do povo”) o que se passava por trás das paredes dos apartamentos comunais soviéticos, onde fermentavam, ao mesmo tempo, a carência, a dor, a inveja, o medo e a delação. O simples ato de comer uma batata a mais, dentro de um modelo social baseado no princípio da igualdade na pobreza, poderia levar o indivíduo e sua família ao degredo e à desgraça.

São centenas de relatos escabrosos, em que as vítimas do sistema repressivo, em meio à violência e a miséria moral, perderam por completo o auto-respeito, os parâmetros e o próprio sentido da existência; pessoas tomadas pelo conformismo e transformadas em peças amorfas destinadas ao trabalho escravo e à obediência cega. Ninguém ousava – e aí de quem! - levantar a cabeça ou mesmo esboçar o desejo de se manifestar politicamente. Coisa em tudo similar ao que nos descreve outro escritor inglês, George Orwell, no seu aterrorizante “1984”. Eis o fato incontestável: ao invés de criar um “novo homem”, velha pretensão totalitária, o sistema comunista gerou um ser desfibrado, coisificado, tangido pelo temor e a autocensura – em suma, um sub-homem.

s adeptos da seita e os espíritos acadêmicos integrantes do movimento comunista, a partir do XX Congresso do PC, em 1956, adotaram como estratégia o sofisma de afirmar que o stalinismo representou apenas um “desvirtuamento” da rota teorizada por Karl Marx(foto) e materializada por Lenin. “Tudo não passou de um equivoco histórico”, proclamou, certa vez, o revisionista caboclo Salomão Malina, último secretário-geral do PCB. Papo cínico e canalha. Pois é da essência mesma do credo coletivista nulificar o indivíduo em função da verdade única que se cristaliza na propriedade estatal dos meios de produção. Stalinista ou não, o sistema se consolida em definitivo na subordinação da sociedade à burocracia estatal, controlada pelo Partido. Assim, as formas de pensar, liberdade, cultura, ensino, relações políticas, sociais, etc., se efetuam no socialismo tão somente sob a “guarda do Estado” e, dentro dele, disfarçada ou abertamente, só podem ou terão condições de existir os que atuam para reafirmá-lo. (Qualquer semelhança com o que se desenvolve, sorrateiramente, no Brasil da Era Lula não é mera coincidência).

Com notável sentido do fato histórico, Figes dá especial relevo aos depoimentos de pessoas que, de algum modo, sobreviveram à época do Grande Terror stalinista. Nela, foram aniquiladas milhões de pessoas, entre as quais milhares de militantes e figuras centrais da revolução russa, tais como os “camaradas” Kirov, Bukharin, Zinoviev e Kamenev. Stalin não brincava em serviço. Como todo bom comunista, só tinha um objetivo: manter o poder. Por isso, ao menor sinal de desconfiança, instituía julgamentos farsescos nos quais os suspeitos se declaravam culpados de conspirações inexistentes e de cumplicidades (impossíveis) com os inimigos do regime. O próprio Lev Trotsky, o homem da “revolução permanente”, antecipou-se e fugiu das garras do “Guia Universal dos Povos”, em 1929, mas não conseguiu se livrar da picareta mortal de um dos seus agentes, na cidade de Coyacán, México, em 1940.

As vilanias do stalinismo e do próprio comunismo são inescrutáveis. No epílogo de seu livro, um êxito de vendas, Figes nos dá conta de que a sombra do Grande Terror da Era Stalin se projeta de forma nítida na Rússia de Putin, o ex-dirigente da KGB. Prevalecem nela ainda, segundo o historiador, o conformismo e o eterno temor diante do arbítrio estatal. O cidadão comum, por uma espécie de perversão moral herdada do passado, não ousa contestar as ameaças das instituições burocráticas e da imensa máquina de segurança do Estado, mantida e até ampliada nos alvores do Putinismo. Para nós, na aparente distância, o fenômeno descrito em “The Whisperers” é inteiramente explicável. Na Rússia atual o governo simplesmente amplia as garras do Estado, passando por cima da fragilidade da sociedade civil liberal e isolando, no processo, a ação do indivíduo consciente como contrapeso ao poder centralizador do Estado forte. Por que digo isso? Bem, os senhores sabem, tenho o Brasil diante de mim.

Ipojuca Pontes
ipojuca@wscom.com.br

terça-feira, 29 de abril de 2008

Entre a fartura e a miséria


Por Paulo Brossard

Está começando a acontecer o que eu temia. O presidente eleito do Paraguai abraçou a tese que pretende a revisão do Tratado de Itaipu, que vinha sendo chocada em alguns setores do país vizinho e veio à tona. Um pacto pode ser alterado, mas dificilmente pode ser modificada uma grande barragem, que seja seu fruto. Trata-se de um ajuste que tinha como escopo construir enorme barragem e pôr em funcionamento usina instalada durante certo tempo e nas condições preestabelecidas. De modo que não se trata apenas de revisar uma convenção, mas de alterar cláusulas que visam à execução do pactuado no que tange a seu funcionamento, assim como à amortização do investido para a concretização do projeto que uniu dois países vizinhos. Conhecido o resultado da eleição, não demorou que o assunto voltasse em termos de cobrança. E como vem sendo freqüente, as declarações de autoridades brasileiras a respeito vem sendo imprecisas, inseguras e incorretas. Em outras palavras, não lembram o estilo do Itamaraty, que desde muito havia conferido ao Ministério das Relações Exteriores o prestígio alcançado, dentro e fora do país. Muita gente falando ao mesmo tempo e de maneira desconexa. De mais a mais, tem sido lamentável a forma dissoluta entre palavra e ação empregadas, em relação a situações criadas por alguns de seus vizinhos. Essa bastardia diplomática estimulou temerários e poderá incentivar outros. O fato é que os ´hermanos´ têm sido promotores de sérios agravos aos interesses do Brasil, solenemente celebrados, e complacentemente tolerados pela nossa parte.
Passo a outro tema. Fatos recentíssimos revelaram que dos 25 mil homens de que o Exército dispõe para a defesa da Amazônia, apenas 240 têm o dever de cuidar por mais de 2 mil quilômetros de fronteira e destes só 17 para proteger uma faixa de 1.385 quilômetros no extremo norte do Pará, apontada como o ponto mais fraco do nosso sistema de defesa. A pobreza aí chega à carência plena a caracterizar a miserabilidade. Ocorre que naquele rincão ermo foi criada uma reserva indígena de 1,7 milhão de hectares contínuos. Essa área não fica distante daquela em que estanciaram as Farc, cujos desígnios são conhecidos e conhecidos seus métodos. Contudo, com desusada energia externou-se o presidente da República ao afirmar que a integralidade da reserva seria mantida. Chamou a atenção que a mesma energia presidencial não tivesse sido usada quando bens de brasileiros, inclusive da Petrobras, foram tomados de seus titulares; a complacência brasileira teria sido evangélica; era como nos tempos da ´ocupação pacífica´, em que tudo foi permitido. O certo é que enquanto o presidente da República se pronuncia dessa maneira, o Comando Militar da Amazônia não oculta sua preocupação, para dizer o mínimo, diante dos riscos ali pendentes, não será necessário grande esforço para imaginar a amargura e o desconforto do comandante militar da Amazônia, tendo em vista a modéstia dos seus recursos em contraste com a enormidade de suas responsabilidades nacionais; basta notar que entre dois pelotões existentes medeiam 400 quilômetros!
Não devo, não quero e não posso contribuir para o agravamento dessa situação calamitosa e por isso não posso, não quero e não devo silenciar em face de situação tão grave e cheia de riscos.
O presidente da República, outro dia, disse em uma de suas eloqüentes orações pela TV, que ele elegeria seu sucessor, pode ser que sim, pode ser que não, mas me parece oportuno lembrar que entre as atribuições presidenciais não está a de eleger o seu sucessor, mas entre elas está a de zelar pela integridade nacional, sua paz interna e seu progresso. E nesse sentido sua responsabilidade é intransferível. Não sei se o respeitado comandante militar da Amazônia não terá, entre triste e revoltado, demorado uma fração de tempo entre a miséria de seus recursos e a fartura ensejada pelos ´Cartões Corporativos´. Afinal era mesmo necessária alguma economia na fronteira amazônica para que mais de 10 mil bem-aventurados tivessem no bolso o benfazejo cartão.
*Jurista, ministro aposentado do STF

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O Exemplo de Uribe



“A guerrilha é um meio de vida” – Manuel Marulanda, o “Tirofijo”

No final dos anos de 1960 fiz, com o fotógrafo Hans Bantel e três integrantes de uma equipe da Televisão Alemã, um documentário sobre o início das guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), na região de La Predera, na Colômbia. Nosso objetivo, além de documentar combates ou escaramuças da guerrilha, era obter um depoimento do seu principal mentor, Manuel Marulanda Vélez, o “Tirofijo”, coisa que, por considerável soma de dólares, foi obtida.

Já à época, os métodos empregados pelas Farc eram cruéis: “Tirofijo”, para obter dinheiro dos nativos, bloqueava as principais rodovias (“carreteras”) da região e cobrava pedágio, em dinheiro ou víveres. Dos motoristas recalcitrantes, que recusavam fazer o pagamento, Marulanda mandava cortar a garganta e puxar a língua pela glote, compondo um quadro de horror. Em seguida, mandava fotografar os cadáveres e distribuir cópias das fotos entre os “carreteros” e viajantes. Queria - e conseguiu - intimidá-los. Ninguém mais fugia do “tributo” das Farc.

Quatro décadas depois, o exército guerrilheiro de “Tirofijo” tornou-se, com a omissão de governantes do quilate de Lleras Restrepo - então presidente da Colômbia -, uma força terrorista das mais poderosas do mundo, que fez do assassinato, seqüestro, assalto, tortura e o tráfico de droga e armas a sua razão de ser. Não foi por outro motivo que “Tirofijo”, no seu depoimento à TV alemã, afirmou: - “Mi hijo, la guerilha es um medio de vida”. Exatamente, para o sanguinário guerrilheiro a luta armada é um meio de vida, tal qual o foi para Lampião, no Nordeste do Brasil, ou para o bandoleiro Nestor Makhno, nas estepes russas.

Mas quem se interpôs com força e determinação, na Colômbia, à crescente sanha deste bandido e sua máquina de matar, gerados ambos pela perversidade satânica do Partido Comunista Colombiano? Álvaro Uribe, o presidente-macho, cujo pai, Alberto, foi assassinado covardemente pelos asseclas de “Tirofijo” – de resto, um presidente que tem a cabeça a prêmio de US$ 400 mil (estipulado pelas Farc) e enfrentou até agora, sem temor, nada menos de 32 atentados tramados pelo bando terrorista.

No duro combate travado no dia a dia contra a guerrilha, Álvaro Uribe controlou em 70% as ações criminosas das Farc, para o desafogo dos colombianos. E exatamente por tal determinação, em defesa da democracia, o mandatário do país vizinho foi eleito, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Mitofsky, do México, o presidente mais popular das Américas. A partir de dados divulgados na terça-feira, 22, quase dois meses após ter destroçado o acampamento das Farc na fronteira com o Equador, Uribe obteve 84% de aprovação, decorrente, claro, do respeito que o povo colombiano lhe devota. Na mesma pesquisa, o “doutô” Luiz Inácio da Silva, com todo o seu bilionário poder de marketing, ficou na 6ª posição. Hugo Chávez e sua chocarrice interminável, em 8º lugar. Raúl Castro, testa de ferro do irmão-ditador, nem classificação conseguiu.

Em recente comunicado do governo da Colômbia dirigido à Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre o ataque aos guerrilheiros das Farc alojadas em território equatoriano, no qual foi aniquilado o chefão “Raúl Reis”, Uribe assegurou que o presidente do Equador, Rafael Correa, não apenas sabia da presença dos membros da guerrilha em seu país, como fez mais: desautorizou qualquer operação do seu exército contra o bando de “Tirofijo”. No mesmo comunicado, o presidente Uribe denunciou, com abundância de provas materiais, que as Farc, desde o Equador, produziram um sem-número de atentados contra cidadãos e a Força Pública da Colômbia. Em especifico, ele menciona que a partir de 2004 foram documentados 40 casos de assassinatos da guerrilha contra civis que cuidavam da tarefa de erradicar manualmente o cultivo de ilícitos em território colombiano. Nada a ver com “insurgência” ou qualquer tipo de “contestação ao regime”, pois não! É tudo conversa. Na prática, deu-se o seguinte: desesperado com a política uribiana de combate às drogas, sua inestimável fonte de renda, “Tirofijo” e seu exército, instalados dentro do território equatoriano, partiram para a execução sumária de camponeses que destroem os rendosos campos de plantação de coca da guerrilha em terras colombianas. No plano das escaramuças revolucionárias, os países integrantes do Foro de São Paulo, (com destaque para Cuba, Brasil, Venezuela, Bolívia, Guatemala, Argentina e, óbvio, Equador), exasperados com a popularidade do governo Álvaro Uribe, intensificam a estratégia desestabilizadora no continente. Não é para menos: o principal objetivo da entidade totalizadora (Foro) é desalojar Álvaro Uribe do poder a partir de intensa campanha de descrédito e desmoralização – coisa que os comunistas fazem como ninguém.

Em circuito interno, num improviso que já se fez folclórico, Celso Amorim, o “chanceler” que o Brasil tinha de exportar (mas que nenhum país democrático do mundo deveria receber), para defender o bando de “Tirofijo” saiu-se com uma obra-prima de cinismo diplomático: “O Brasil não faz classificação de quais organizações são terroristas e, por isso, não iria discutir se as Farc entram ou não nesta categoria”. Neste sentido, Lula foi mais explícito e, fazendo coro ao Coronel Chávez, a quem julga um “grande pacificador”, não vê as Farc como organização terrorista. Ao contrário do que declaram o Canadá, a União Européia e os Estados Unidos, o vosso sindicalista-presidente condena a legítima ação da Colômbia contra a guerrilha e proclama que as Farc não passam de uma organização “insurgente”.

Resumo: com a chegada de Fernando Lupo (um ex-Bispo integrante da apóstata Teologia da Libertação) à presidência do Paraguai, o cerco se fecha. Acossadas pela ação subversiva dos petrodólares de Chávez, a grana do narcotráfico e a proteção diplomática de países como o Brasil, resta o apoio das consciências democráticas à Colômbia de Uribe. Pessoalmente, escrevendo, é o que farei.

Ipojuca Pontes
ipojuca@wscom.com.br