domingo, 2 de dezembro de 2007


Folha de S. Paulo

Rejeitam um terceiro mandato consecutivo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva 65% dos brasileiros, revela pesquisa Datafolha realizada entre os dias 26 e 29 de novembro. Em nenhuma das regiões do país, nem mesmo no Nordeste, onde é mais bem avaliado, essa hipótese contaria com o apoio da maioria da população. O Datafolha perguntou aos entrevistados se concordariam com uma mudança na lei para dar o direito a Lula de concorrer a um terceiro mandato em 2010. Apenas 31% apoiariam a idéia.

Foram entrevistadas 11.741 pessoas, em 390 municípios de 25 Estados. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

A proposta de terceiro mandato não é acolhida pela maioria nem quando o questionamento é genérico, sem citar Lula. Para 63%, presidentes não devem ter esse direito. O percentual sobe para 66% quando se trata de governadores e vai a 67% no caso de prefeitos.

O terceiro mandato é defendido por setores petistas e provoca temores na oposição. Publicamente, tanto Lula quanto a direção do PT negam a intenção de trabalhar por uma mudança constitucional com esse objetivo. Em entrevistas recentes, Lula revelou o desejo de voltar à Presidência. Em 2014. Mas o PT não tem hoje nomes competitivos para disputar 2010, primeira eleição desde 1989 sem Lula na cédula.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) elegeu como prioridade o combate ao terceiro mandato. Fez discursos inflamados no 3º Congresso do PSDB, na semana retrasada, e criticou ações do governo Lula que, na sua avaliação, atentam contra a democracia. O PT revidou, lembrando que o tucano trabalhou para aprovar a mudança constitucional, em 1997, que lhe garantiu o direito à reeleição. Em 1994, a revisão constitucional já havia reduzido o mandato de cinco para quatro anos.

Rejeição generalizada

O terceiro mandato a Lula é amplamente rechaçado, segundo a pesquisa, entre os brasileiros mais escolarizados - 78% com nível superior dizem não à idéia - e renda familiar mensal mais elevada. Entre os que recebem acima de 10 salários mínimos, 76% não querem a chance de uma nova eleição para o atual presidente.

Mesmo entre os que têm níveis educacionais e de renda mais baixos a proposta não conta com boa aceitação. Para 58% daqueles com renda familiar de até dois salários mínimos e para 58% dos que têm só o ensino fundamental, Lula não deve disputar outro mandato após oito anos no poder.

Só Pernambuco daria legitimidade a uma mudança na Constituição a favor de uma nova reeleição presidencial: 51% apoiariam a proposta. Curiosamente, é o Estado natal do petista - o presidente nasceu em Caetés, então distrito de Garanhuns. Porém, para 46%, a lei deve ficar como está.

No Sul do país, a rejeição ao terceiro mandato aumenta. No Paraná, 73% são contra a idéia; no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, 72%.

Já no Nordeste, uma mudança legal que abriria a porta ao terceiro mandato é mais bem digerida do que nas demais regiões: 58% rejeitam a idéia e 38% a apóiam. No Sudeste, 67% são contra; na região Sul, 73%.

Partidos

A pesquisa confirma o confronto PT versus PSDB. Entre os entrevistados cujo partido de preferência é o PT, 51% acham que Lula deve disputar pela terceira vez em 2010, contra 47% que discordam. Quando o partido preferido é o PSDB, o cenário é radicalmente alterado: 83% são contra e só 15% dariam esse aval a Lula.

As bicadas entre tucanos e petistas por conta do terceiro mandato suscitaram até partidos políticos a elaborar nota oficial contra a idéia. Os então presidentes do PSDB, Tasso Jereissati (CE), e do PT, Ricardo Berzoini (SP), a assinaram, assim como dirigentes do PMDB, DEM, PP, PSB, PC do B e PSC.

A discussão sobre o terceiro mandato quase azedou de vez a votação da prorrogação da CPMF no Senado. No início do mês passado, Lula chamou ao Planalto o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), que articulava a apresentação de emenda dando ao presidente da República autonomia para convocar plebiscitos, entre eles um sobre o terceiro mandato. "Minha proposta não tem nada a ver com terceiro mandato", disse Devanir após o encontro com Lula.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A preguiça dos descontentes e a oposição de controle remoto


Por Ucho Haddad (*)


Disse minha saudosa avó, certa vez, que no mundo existiam – e ainda existem – quatro assuntos indiscutíveis. A mulher ideal, o dentifrício preferido, o time de futebol do coração e política. Por ocasião de tal discurso, que confesso me soou absolutamente estranho, cheguei a pensar que se tratava de um impropério qualquer, mas o tempo passou e conclui que aquela velha senhora estava coberta de razão. A maturidade chegou e deixei de discutir tais temas, até porque o resultado sempre leva a um abismo conclusivo.


Há muito não sou abduzido por discussões políticas, pois a exemplo do que acontece com a seleção brasileira, o Brasil tem 190 milhões de técnicos de futebol e políticos com soluções inovadoras e definitivas. Sendo assim, prefiro passar por desentendido a mergulhar em um acalorado entrevero verbal sobre algo quase que sem solução. Mesmo assim, há dias aceitei a provocação de um conhecido, não para mostrar o que o exercício do jornalismo político me evidencia, mas apenas para medir o grau de comprometimento dos descontentes na busca de uma solução político-administrativa para o País. Se é que existe algum grau de comprometimento.


Quando a esquerda tupiniquim desembarcou no cenário político nacional depois da anunciada redemocratização do País – digo anunciada porque nos domínios verde-louros jamais existiu democracia – o direitismo burro e autoritário imaginou ser aquele movimento nada mais que um devaneio de um grupelho de idealistas, que tinha na outrora soviética Moscou o modelo ideal de vida política. E deu no que deu. Tem ladrão de banco dando ordem e seqüestrador posando de poderoso, sem contar os alcagüetes que exalam inocência.


O tempo passou, e a cubanização do Brasil caminha a passos não tão largos, como ocorre na Venezuela, porém contínuos. Quem analisa separadamente as ações do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e, na seqüência, os reúne sob a ótica político-ideológica, logo percebe que está em marcha um processo de autoritarismo socialista, que tem na distribuição equânime da miséria o seu cardápio principal. Enquanto esse processo é instalado de maneira silenciosa, os comandantes desse projeto criminoso de poder se entopem de dinheiro, como se o mundo fosse terminar amanhã.


Tomando o mensalão como ápice da corrupção do governo Lula da Silva, é preciso compreender que esse esquema indecoroso de cooptação de parlamentares, que passou pelas mãos do publicitário (sic) Marcos Valério, tinha, sim, o aval dos inquilinos Palácio do Planalto, a começar pelo principal de seus ocupantes. Admitir à opinião pública o conhecimento de tão lamacenta operação seria não apenas o fim de uma carreira política, mas o sepultamento de um projeto de perpetuação no poder.


Muito burramente, os anti-Lula, que jamais tiraram o “derrière” da cadeira para qualquer coisa, continuam acreditando que o mensalão foi a estocada derradeira contra a turma que adotou a bandeira do socialismo como escudo para a roubalheira que se pratica nos escaninhos oficiais do poder. Cabisbaixos por conta de uma suposta vergonha advinda do envolvimento no mensalão, os aduladores do presidente-metalúrgico simplesmente gargalham nos bastidores, pois a sanha do eleitorado oposicionista foi facilmente neutralizada pela armadilha rouge instalada no meio desse lamacento caminho.


Enquanto os acomodados críticos do governo Lula crêem no desmonte do Partido dos Trabalhadores, os petistas continuam agindo de maneira impressionantemente contínua. Com uma estrutura profissional e militar, o PT tem na sua militância hierárquica uma de suas mais eficientes armas para a conquista definitiva do Estado. De suicidas cibernéticos, que açoitam de maneira chula os críticos do governo de Luiz Inácio, a graúdos que fazem da intimidade com o poder uma espécie de cornucópia dourada, o PT vai muito bem obrigado. E agradece àqueles que pensam que não.


Se por um lado a imprensa carece de manchetes cada vez mais escandalosas, por outro a sociedade, acomodada e impotente, esfrega as mãos a cada novo escândalo que surge no cenário político nacional, não sem antes deixar escorrer a saliva venenosa da desforra. Quem anda pelo Brasil percebe a vontade quase animalesca do eleitor de querer fazer de Renan Calheiros uma espécie de boi de piranha dessa evidente crise institucional, instalada homeopaticamente como parte de um plano traçado com a devida e maquiavélica antecipação. O que não significa em nenhum momento que o alagoano Renan seja candidato a querubim.


Com um Congresso bicameral, ao Palácio do Planalto restaram duas opções distintas, porém simultâneas. A primeira delas, mais cara e fácil, foi cooptar, ao custo de cargos de segundo escalão e liberação de emendas, os parlamentares da Câmara, o que permitiu à horda palaciana ali instalar uma espécie de rolo compressor virtual, que entra em ação todas as vezes que está em votação uma matéria de interesse do governo federal. Do outro lado do Congresso, no Senado Federal, a estratégia foi a mesma adotada nos golpes que fazem com que a ditadura substitua a democracia. Ou seja, o achincalhe do Poder Legislativo como justificativa de manipulação do Congresso ou, até mesmo, o seu imediato fechamento. E pesquisas de opinião já apontam para tão preocupante quadro.


A crise advinda do escândalo Renan Calheiros interessava ao Palácio do Planalto, mas o imbróglio durou além do esperado. Para contornar o inusitado, Lula, que disse ser a tal crise de responsabilidade do Senado, entrou em cena para ejetar do cargo de presidente da Casa o aliado Renan Calheiros. Agora, com Renan fora do páreo e com a desculpa de que sua volta à presidência do Senado comprometerá o andamento dos trabalhos legislativos, o Planalto oferecerá o alagoano aos leões da política botocuda.


Por mais culpado que seja Renan Calheiros – e tudo o que aí está não deixa dúvidas – sua permanência na presidência do Senado era ao mesmo tempo um empecilho político e uma espécie de tábua de salvação para um povo que está caminhando na direção de uma ditadura socialista. Claro e cristalino está que aquilo que foi combinado com Renan não será cumprido, e isso certamente gerará uma crise institucional sem precedentes, pois quem bem conhece Alagoas sabe que os nativos de lá normalmente caem atirando. Pode até ser que Renan Calheiros caia e espere um pouco para dar o troco, mas é certo que um contra-ataque virá mais cedo ou mais tarde. E aí sim o Brasil estará no fio da navalha, pois ou Renan atira na direção do Palácio do Planalto, ou acaba de arruinar a nesga de moralidade que ainda resta no Senado. Caso prevaleça a segunda opção, o caminho estará livre para o presidente-metalúrgico tentar um terceiro mandato.


Acostumada a discursos oportunistas, que não passam de uma mambembe discussão de quintal de periferia, a oposição brasileira jamais foi tão pífia e incompetente. Um país que sonha em ser uma grande nação, sem abandonar a democracia, carece de oposição republicana. E não desse bate-boca chicaneiro que tem tomado conta dos plenários da Câmara e do Senado. Acostumado com o status de situação, o oposicionismo atual tem demonstrado fraqueza política até mesmo para contestar o que lhe impõe o Palácio do Planalto. Mesmo assim, os fúteis e inflamados discursos oposicionistas têm levado os críticos de Lula da Silva ao delírio, como se o presidente desse alguma importância ao que asperge das tribunas do Congresso.


O fato é que já não se faz mais oposicionista como à época do impeachment de Fernando Collor. Os descontentes atuais, os anti-Lula, querem uma revolução imediata e sem esforço algum. Acreditam que podem defenestrar Lula do poder através da internet ou, então, com conversas ufanistas em restaurantes caros e elegantes nas mais importantes cidades brasileiras. Falam de boca cheia que o PT esfarelou, embalados por goles milionários de champanhe francês ou uísque escocês. Na primeira manifestação anti-Lula que surge, por obra e graça de algum abnegado, deixam de comparecer ao evento sob a desculpa de que têm coisas pessoais para cuidar. Se a oposição de hoje jamais soube o significado de seu papel, a porção descontente do eleitorado é acomodada e foi tomada pela síndrome de Aladim.


E não será novidade se no dia da morte de Fidel Castro seja decretado feriado nacional em nossa querida e bagunçada Botocundia. Até porque, gênio e preguiçoso é o que não falta por aqui.


(*) Ucho Haddad, 48, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira (www.wanderleynogueira.com.br), do Inforel (www.inforel.org) e da Gazeta do Oeste (http://gazetaoeste.com.br)

domingo, 23 de setembro de 2007

Pergunte sempre: A quem interessa?



Por Jorge Serrão

Qual o real interesse da cúpula das Organizações Globo – representada pelo jornalista Ali Kamel - em comprar uma briga contra os livros didáticos, adotados pelo MEC, que teriam tendência esquerdista? Será que a máquina global teve um surto de defesa do pensamento conservador, ora em desvantagem contra o realismo canhoto? Ou será que a Editora Globo está querendo atacar a concorrência editorial para fazer com que as escolas e os professores adotem os livros por ela produzidos, que seriam melhores e sem ideologias?

Ali Kamel baixou a marreta, especificamente, em um livro da editora Nova Geração: “Nova História Crítica”, escrito pelo professor de história Mário Schmidt, lá da cidade de Niterói. O Livro foi classificado por um outro editorial de O Globo como "lixo ideológico que submete estudantes a lavagem cerebral". Nenhum dos produtos das organizações Globo – e de suas congêneres – também fazem isto? Responder a tais questões é fundamental para entender bem a história da polêmica instaurada.

A versão de Ali Kamel e de O Globo sobre o livro vem sendo requentada e reproduzida por vários jornais do País e por muitos articulistas respeitados. O problema é que nem todos tomaram o devido cuidado de ler o livro didático criticado, antes de xerografar (como verdade absoluta) o que foi proclamado como verdade pelo dirigente da Rede Globo. Escrita em linguagem para jovens, bem coloquial, a obra atacada traz opiniões polêmicas do autor sobre personagens da nossa história – tradicionalmente vendidos como “ídolos” ou “heróis”. Leia: O livro didático que a Globo quer proibir

O conteúdo da obra do Mário Schmidt (que é um anti-academicista) vai gerar mil anos de polêmica. Aliás, qualquer livro de história tem de fazer isto. É preciso deixar bem claro que o problema não é conteúdo ideológico do livro. Mas sim a leitura que se vai fazer dele – sobretudo em uma sociedade ignorante como a nossa, na qual a classe de maior poder aquisitivo e escolaridade também é avessa a leituras. Por isso, é perda de tempo condenar o livro por seu conteúdo ideológico. É igual ao corno que taca pela janela o sofá da sala (onde a mulher o traiu).

No Brasil, a influência ideológica é evidente na historiografia. E varia conforme as simpatias ideocráticas do poder vigente. A tendência do livro de história é refletir o modo de pensar em vigor no momento histórico. A moda pós-64 é o pensamento da esquerda, que vence, por enquanto, a batalha ideocrática contra a linha anti-comunista. Durante o Estado Novo, os livros de história refletiam a simpatia do regime daquela época pelo fascismo-nazismo-integralismo. O papel impresso aceita tudo.

Em resumo: a história é contada de acordo com os interesses de plantão e conforme as visões em moda numa determinada época. Sempre foi assim. Geralmente, valem as versões, e nem sempre os fatos. Os regimes autoritários ou a caminho do totalitarismo adoram promover a lavagem cerebral dos jovens, sobretudo a partir do ambiente da escola. Fabricam as versões da história conforme lhes convêm. A tentativa de doutrinação – quase sempre eficiente – é feita com as ideologias que interessam aos eventuais poderosos de plantão.

Quem tem a ilusão de que vai encontrar a verdade histórica lendo um único livro pode se mudar lá para Taubaté, para a morar com a famosa velhinha crédula. Aliás, o brasileiro peca por não ler. Nossas oligarquias letradas pecam, mais ainda, por lerem, mas não terem capacidade de entender o que leram. Analisam tudo com mecanismos e conceitos equivocados ou distantes da realidade. Nossas “zelites” são ignorantes na compreensão histórica. Raciocinam com o intestino – e não com o cérebro. Exatamente por isso repetem tanta escatologia histórica. E ainda acham que tem razão...

Eis por que o Brasil não aprende com seus próprios erros históricos. Outro fato grave é a mania que a pretensa intelectualidade brasileira tem de adotar “idéias e ideologias completamente fora do lugar”. Por aqui, se um conceito mal explicado virou moda na Europa ou nos Estados Unidos, logo os gênios tentam aplicá-lo aqui, para “explicar” a realidade brasileira. O resultado disto é digno de puxar a descarga da Zelite (aquele famoso vaso sanitário). O fenômeno da adoção das ideologias (fora do lugar) por aqui é bem ilustrativo.

Ideologia é "um conjunto de idéias, pensamentos, doutrinas e visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo, orientado para suas ações sociais e, principalmente, políticas". As ideologias servem como mecanismos políticos de dominação, manipulação e controle das massas, através da padronização e simplificação das idéias. As ideologias podem ser boas ou ruins – como bem ensinou o comunista e revolucionário italiano Antônio Gramsci. Um sujeito muito citado, mas realmente pouco estudado por seus áulicos da chamada esquerda ou por seus inimigos mortais da chamada direita.

O problema é que o emprego de uma ideologia tem a capacidade de criar uma “falsa consciência” sobre a realidade, numa ação psicossocial que visa a reforçar e perpetuar a dominação, o controle e a manipulação. Quando isto acontece, as ideologias se transformam em ideocracias. O conceito é academicamente inédito. Ideocracias são os modelos ideológicos aplicados na prática para a conquista e manutenção do poder.

As ideocracias atuam sobre a “vida” e a mente dos seres organizados socialmente. As ideocracias querem o poder. O discurso ideocrático é retórico. Aposta suas fichas na persuasão. É voltado para uma ação pragmática. Entendido tal conceito, o conflito esquerda-direita se reduz a uma imperdoável perda de tempo mental. Torna-se papo de otário. Os brasileiros deveriam estudar mais. Ler e compreender aquilo que está lendo. Usando conceitos e mecanismos corretos. Do contrário, vira escravo das ideocracias de plantão ou na moda.

O filósofo Olavo de Carvalho deu uma aula sobre o assunto e fez uma importante advertência aos incautos mal letrados da nossa pseudo intelectualidade, no artigo “A ideologia da anti-ideologia” (no Diário do Comércio em 10/09/2007): “O mal não está na mera existência do pensamento ideológico, nem mesmo na sua onipresença na vida social. O mal aparece quando as esferas de atividade que deveriam ser orientadas por formas de pensamento mais exigentes e mais voltadas à descoberta da verdade se deixam infectar de ideologismo, como acontece, no Brasil, com a quase totalidade do que se produz sob o rótulo de “ciências sociais”. Mas a adesão mesma de tantos acadêmicos e consultores empresariais ao pragmatismo supra-ideológico é um sintoma desse mal”.

As ideologias existem. Sempre vão existir. Um mundo sem ideocracias seria um mundo sem política. Tal mundo não existe – e não ser na cabeça de imbecis mal intencionados politicamente. Cada um tem a liberdade de abraçar a ideologia ou ideocracia que achar mais conveniente. Todos têm o direito de defender sua linha de pensamento, sem ser reprimido ou perseguido por isto. O sujeito só precisa saber dos perigos objetivos deste abraço e desta defesa ideocrática. Até porque o mundo é cruel com os ignorantes.

O Brasil não pode mais perder tempo com batalhas ideológicas de Itararé. Tais disputas só provocam mais ódios. Só geram mais divisões artificiais. Apaixonados pelas ideologias, os sujeitos sociais deixam de pensar no interesse maior do Brasil e dos brasileiros. Passam a agir igual aos fanáticos e vândalos torcedores de times de futebol.

O comportamento de brigar pela ideologia – tal como um torcedor aloprado – só desvia os brasileiros do foco. O alvo seria cuidar da nossa Nação e, principalmente, do nosso povo. Mas, como perdemos o foco com ódios fora do lugar, os reais controladores do Brasil se aproveitam de nossa eterna divisão para nos manter artificialmente na miséria. A Oligarquia Financeira Transnacional se locupleta com a nossa ignorância.

A linha editorial do Alerta Total vai sempre lembrar repetir: Temos a opção de deixar as briguinhas ideocráticas de lado e pensar um projeto nacional para o Brasil. As auto-proclamadas esquerdas e direitas nunca fizeram isto. Os radicalóides extremistas de ambos os lados detestam pensar o mundo real do País. Eles preferem as soluções autoritárias e centralizadoras do Estado – que só agravam nossos problemas. Afinal, somos uma sociedade inventada por um Estado – e não o contrário.

A linha editorial do Alerta Total vai ressaltar até a assimilação desta necessidade pelo mais turrão leitor: O Brasil precisa de um projeto nacional com base na construção da Democracia – coisa que nunca tivemos por aqui, em 507 anos de Brasil. O conceito é bem simples: Democracia é a prática da segurança do Direito, através do exercício da razão pública, que é a cidadania em ação. Sem antes cuidarmos disto, qualquer discussão ideocrática é mera babaquice.

O fundamental na construção democrática é sempre questionar: a quem interessa tal ideologia ou ideocracia de plantão? A quem interessa tal versão dos fatos? Assim deve agir o jornalismo estratégico e inteligente. A pergunta é a chave para os mistérios da caixa preta da história. Quem não pergunta perde o bonde (ou jato) da história. Afinal, vivemos no mundo pontocom, onde tudo passa rapidinho. Perguntar só ofende aos bandidos da história. Mas eles acabam sempre desmascarados quando tentam omitir a resposta.

Por isso, perguntemos, questionemos, duvidemos sempre. Provocar os idiotas, os poderosos de plantão e os netos da puta é uma ação fundamental para a evolução sadia e livre da história.

Jorge Serrão, jornalista radialista e publicitário, é Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. http://alertatotal.blogspot.com e http://podcast.br.inter.net/podcast/alertatotal