sexta-feira, 27 de julho de 2007

ACIDENTES DA GOL E DA TAM SÃO ASSASSINATOS DOLOSOS


Aos leitores que notaram o descompasso de meus últimos artigos com os acontecimentos recentes da conjuntura brasileira, informo que estive, por dez dias, fora do Brasil, tendo deixado artigos prontos para cumprir meu compromisso com Diego. Soube apenas superficialmente do acidente com o Airbus da TAM. Ao retornar ao Brasil vivenciei, como Denis Rosenfield descreveu em seu artigo de ontem, minha história pessoal de vítima do caos aéreo. Mas, nada se compara à emoção e a dor das tristes descobertas que fui fazendo algumas horas após pisar em solo brasileiro.


Morreu no acidente da TAM a nora grávida de um amigo pelo qual guardo enorme respeito e admiração pelos anos de convivência fraterna e aprendizado intenso do que sei sobre política. Seu filho, um jovem advogado que conheci profissionalmente, assim como todos os seus familiares, jamais serão reparados pela dor dessa perda, agravada pela eventual impossibilidade de uma cerimônia fúnebre com o corpo presente de seu ente querido.O senhor Marco Aurélio é gaúcho de nascimento e iniciou aqui sua carreira política no movimento estudantil, tendo convivido com meu professor. Seu gesto obsceno, se já não fosse grave e emblemático indicador da demência de nossos governantes, é estúpida, insensível e injustificável agressão adicional à dor das famílias vítimas.


O impacto desse gesto, por razões evidentes, foi mais pesado ainda para os membros dessa família em especial. Difícil conter as lágrimas ao ouvir meu amigo ao telefone descrevendo sua dor, e novamente agora, ao escrever essas linhas.Para Lula e seus séqüito de burocratas, animais políticos no mais primitivo e degradante sentido da expressão, tudo se resume a livrarem-se da punição pelo crime doloso que cometeram e cometem nos dois acidentes e na gestão do caos aéreo nacional. Os gabinetes de crise que o governo e a TAM montaram, não visam consertar o caos que produzem, mas à proteção dos danos às suas respectivas imagens. Cabeças vazias são entregues aos leões, versões improvisadas que não resistem poucas horas para as causas do acidente, e conhecidas táticas diversionistas de contra-informação e desorientação da opinião pública vêm sendo usadas para proteger os culpados pelo acidente GOL, e novamente no caso da TAM.


A impunidade é a meta dos responsáveis. Poder e dinheiro estão acima de tudo para essa gente hipócrita. As declarações de Lula evidenciam textos e roteiros meticulosamente construídos por marqueteiros inescrupulosos com o único objetivo de evitar que a imagem do "pai dos pobres" seja prejudicada pela revelação de seu verdadeiro conteúdo oculto, prenhe de podridão moral.Segundo o Dicionário Aurélio o significado jurídico do termo "dolo" é: "Vontade conscientemente dirigida ao fim de obter um resultado criminoso ou de assumir o risco de o produzir."Menos de 24 horas após chegar ao Brasil, recebi por e-mail a gravação do trecho de um discurso que o deputado Júlio Redecker (PSDB/RS) fez no Congresso Nacional sobre o acidente com o Boeing da GOL, denunciando a responsabilidade do governo Lula, na figura da Casa Civil da Presidência da República, sobre as mortes daquela tragédia. Segundo a denúncia documentada do deputado, houve deliberado contingenciamento de verbas para modernização dos aeroportos, desde 2005, mesmo diante dos reiterados alertas de técnicos envolvidos na avaliação do setor, de que acidentes aéreos ocorreriam como conseqüência dessa decisão. De forma trágica e involuntária, o deputado Redecker vaticinou sua morte, provando com o sacrifício da própria vida a acusação de assassinato doloso que recai sobre os ombros dos responsáveis por esse desgoverno e pelas companhias aéreas. Em meio ao mar de mediocridade e corrupção que reina sobre o parlamento brasileiro, o deputado Redecker, a quem conheci profissionalmente, era uma digna e honrosa exceção. Líder vocacionado para o poder, marcado por sólidas convicções morais, preparo técnico e intelectual, inclusive com formação acadêmica no exterior, o deputado tucano tinha todas as qualidades para exercer mandato executivo a testa de um governo estadual, ministério e, no futuro, mesmo a Presidência da Republica, se o destino lhe oferecesse essas oportunidades.


A dor de sua família não é menor que a dos demais familiares das outras vítimas. Sua morte priva-nos, como cidadãos brasileiros, também da esperança de que um dia líderes dignos da grandeza moral que deve pautar a conduta dos homens públicos voltem a nos governar.Desde os tempos da agonia da Varig, protagonizada pela estupidez de seus gestores e somada aos noticiados lobbies de ilustres petistas interessados na intermediação da sua venda para TAM, evidencia-se pela forma como autoridades lidam com uma crise dessa gravidade, que a mão da corrupção contamina com irracionalidade as decisões que pautam os inescrupulosos interesses políticos e econômicos dos abutres que tripudiam sobre a tragédia das vítimas e da nação vilipendiada. Ironia do destino confirma o dito chinês que lembra que pactos entre ladrões terminam no minuto seguinte ao roubo, na hora da partilha do butim.A se confirmar a denúncia de que a redução da pista de Congonhas para a construção de um hotel teria sido autorizada pelo governo de Marta Suplicy, mais uma ré e outros tantos réus devem contas à Justiça Criminal, às famílias da vítimas e à nação.


Dispensável nomear o responsável número por esses e tantos outros crimes de lesa pátria que desfilam pelo noticiário desde as denúncias de Roberto Jefferson. Mas, as companhias aéreas, movidas pela cobiça de ocuparem o vácuo deixado pela Varig, têm sua parcela de culpa nesse descalabro. No dia 24 passado, ao retornar ao Brasil, embarquei num Airbus da TAM, igual ao acidentado em Congonhas, no aeroporto de Cumbica. Em meio ao caos no saguão do aeroporto, répteis furavam a fila de check in dos participantes do programa de "fidelidade vermelha" da TAM, com a cumplicidade passiva de uma funcionária que se negava, agredindo verbalmente passageiros indignados, a fornecer sua identificação completa para denúncia aos órgãos competentes.


O vôo, com decolagem prevista para as 07:50, encontrava-se na cabeceira da pista às 09:30, quando recebeu ordem de retornar ao pátio de embarque, pois um ônibus que transporta passageiros dos portões térreos do aeroporto, perambulava pela pista desorientado em busca do avião no qual deveria despejar 40 cidadãos brasileiros esquecidos pela TAM. Segundo admitiu uma "voz feminina" da TAM, no alto-falante do avião, a tripulação havia sido informada pelo setor de embarque da própria companhia, que os passageiros já embarcados compunham o total a ocupar a aeronave para aquela viagem. Como se não bastasse, diante dos comentários estupefatos dos passageiros, "uma voz masculina" da TAM na aeronave, abandona o script padrão das orientações obrigatórias antes da decolagem e, ao pedir, em linguagem coloquial e debochada, a atenção dos passageiros para o VT com as instruções de segurança, comete um erro técnico de operação do aparelho de vídeo e afirma no alto-falante: "Eu sempre erro isso aqui". E ri como quem ignora o risco de morte iminente de todos os embarcados, do qual poderia se tornar vítima. E cúmplice.Ninguém me contou. Meus familiares e eu vivemos. E, felizmente, sobrevivemos. Sem comentários.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

TESTEMUNHO


Da gang do mensalão, dossiê tucano ao assassinato da TAM...Estão todos no governo do crime(foto)!
por Denis Rosenfield



Nada como uma experiência, por mais lamentável que seja, para que se possa ter uma idéia mais precisa, e mais real, do que acontece no tráfico aéreo brasileiro. E deve ser bem uma questão de tráfico, de influência, de recursos públicos, de cargos loteados entre os companheiros e de incompetência administrativa. As companhias aéreas, provavelmente de tão protegidas oficialmente, parecem nada temer. Se a impunidade reina, como revelam os escândalos do mensalão, dos companheiros-aloprados, dos sanguessugas, nada mais normal para as ditas empresas de aviação seguirem o mesmo caminho. Lula se deu ao luxo de emprestar a sua solidariedade e compreensão para todos os companheiros envolvidos com o desvio de recursos públicos. Foi ele também incapaz de prestar solidariedade e apoio aos familiares das vítimas do acidente da TAM. Deveriam os donos das empresas de aviação comportar-se diferentemente? Terão igualmente o seu afago! Segunda à noite, 23 de julho, eu tinha um vôo previsto da TAM de Londrina para Curitiba, tendo Porto Alegre como destino.



Fiz check in 40 minutos antes do embarque, às 19.15 horas. Disseram-me que havia um atraso de pelo menos 1.30 hora, devendo eu aguardar. Foi o que fiz. Depois de sucessivos atrasos, fomos chamados para o embarque às 22.30 horas. Um pouco antes de entrarmos no avião, fomos avisados de que o aeroporto de Curitiba estava fechado e, caso não fosse possível pousar neste aeroporto, o faríamos no aeroporto de Joinville ou no de Florianópolis. A companhia poria um ônibus à disposição para fazermos o deslocamento para Curitiba. Já dentro do avião, o comandante confirmou o que acabo de relatar.



Depois um silêncio de mais de uma hora, dentro da própria aeronave, sem que nenhuma informação fosse prestada, apesar da insistência dos passageiros, nada foi comunicado. As comissárias diziam que iriam se informar, pois o comandante estava sempre no telefone, não podendo nos atender. Fechado na cabine, assegurava o seu isolamento. Havias pessoas com fome, cansadas, algumas, devido a conexões, com mais de 40 horas de problemas. De repente, sem que nada fosse explicado, foi-nos comunicado que o vôo estava cancelado. Simplesmente isto. Cancelado! Houve ainda um toque de maior perversidade quando um comissário ainda nos informou que não havia hospedagem prevista, nem possível, em nenhum hotel de Londrina. Simplesmente isto. Desembarquem e se virem, esta foi mensagem! Direito do consumidor? Existe isto?Jamais tinha visto tal grau de desrespeito para com os clientes, que, aliás, pagam por esse péssimo tratamento. Devemos ser masoquistas! Eles, porém, enchem os bolsos! É como se os cidadãos desse país, fossem gado, manipulado por empresários inescrupulosos, mancomunados com as ditas autoridades (ir)responsáveis.


Não há nem para quem apelar, pois os (ir)responsáveis da ANAC e da Infraero contribuíram fortemente para que o país chegasse a essa situação de calamidade. Uma passageira gritou: quem votou em Lula? Ninguém respondeu. Os eleitores foram para o espaço, junto com a credibilidade dessas ditas empresas.A desdita não terminou, porém, aí. Comprei uma outra passagem de Londrina para Porto Alegre, na Gol, com partida prevista às 6.15 horas da manhã. Voltei para o hotel no qual estava hospedado e, graças a isto, consegui um quarto. Dormi 3 horas e, às 5.15 horas estava no saguão do Hotel. Encontrei, por coincidência, um funcionário da Gol que tinha vindo avisar outros passageiros de que o vôo estava cancelado. Contudo, tinham outro avião chegando para o vôo das 12.40 e que seria conveniente aguardarmos no Hotel. Conselho sensato naquela circunstância. Eles viriam por nós às 10.30 horas. Vieram, na verdade, às 11 horas para nos dizer que esse vôo estava 3 horas atrasado, sem nenhuma previsão. Ademais, havia uma possibilidade de cancelamento muito forte, acima de 50%, segundo ele por condições metereológicas. Foi-nos, então, dada a alternativa de viajarmos de ônibus para Porto Alegre, Passo Fundo, Curitiba e São Paulo. Uma mesma proposta tinha sido feita pela TAM para outro passageiro, com quem tomei o café da manhã, às 6.00 horas.


E alguns aceitaram satisfeitos! A isto chegamos! Imaginem a cena: funcionários oferecendo viagens de ônibus para clientes de companhias aéreas. As empresas aéreas estão se tornando empresas de ônibus! O caos aéreo está resolvido. Os aviões serão vendidos e, em seu lugar, elas comprarão ônibus! Eis a nossa nova modernidade. Eu, de minha parte, aluguei um carro com motorista e fiz uma viagem de 14 horas, chegando a Porto Alegre, às 3.00 horas da manhã. Perguntei-me se tinha voltado no tempo. Indaguei-me também: quem votou em Lula?

quarta-feira, 25 de julho de 2007

INDIGNAÇÃO DEMOCRÁTICA


por Sebastião Paixão Jr.


Creio que todos os cidadãos que se julguem probos e honestos estejam insatisfeitos com os desmandos da política. Acontece que nossa insatisfação é passiva e inerte. Objetivamente, não fazemos nada para mudar uma corrupção cada vez mais escancarada e ordinária. Os lacaios da política perderam todos os limites éticos; solapam abertamente o patrimônio público e, no seu íntimo, devem dar uma bela gargalhada daqueles que se atrevem a impugná-los. A extrema ousadia dos corruptos é respondida com uma conivência cândida por aqueles que se julgam de bem. Com isso, silenciosamente, aceitamos todos os abusos que ocorrem no país. E o mais grave: somos partícipes omissos dessas desventuras.A questão é que não queremos nos incomodar. Afinal, porque eu deixarei tranqüilidade do lar e da vida privada para comprar briga com poderosos profissionais da corrupção? Para que suportar pressões e eventuais ameaças sobre minha família? Por que, logo eu, terei que tomar a iniciativa se esse país está fadado ao martírio da desonestidade? Imaginar um Brasil honesto não seria coisa da ingenuidade juvenil? Enfim, é assim que pensamos.



Cremos que a situação é insolúvel, pois tudo parece estar corrompido. Enquanto isso, os lobos fazem a festa para o olhar passivo dos cordeiros.A nossa inação está nos matando. Entregamos, todo mês, 27,5% de nossa renda para um governo que sequer possui escolas decentes para nossas crianças; para um governo que sequer proporciona uma saúde pública mínima e eficaz; para um governo que oferece uma previdência pueril; para um governo que não consegue construir estradas e aeroportos com condições de dirigibilidade e segurança; para um governo que deixa nossas florestas serem devastadas à luz do sol; para um governo ineficiente e, pior, completamente omisso no combate da corrupção endêmica que se espalha por todos os quadrantes do setor público.


Ora, é no seu salário suado, contribuinte, que estão botando a mão e você ainda fica quieto?Somos uma democracia, mas não temos cultura democrática. Nossa apatia diante da escancarada desonestidade política revela nosso pouco apreço às instituições republicanas. O recente escândalo do Senado é paradigmático. A presidência da Alta Casa legislativa, que deveria ser sinônimo de austeridade e decência, vê-se envolvida em denúncias indecorosas de grosso calibre. E, ao invés da preservação do Senado da República com o afastamento do cargo até o final das investigações, prefere-se a manutenção das influências do cargo para fins de interesse pessoal. O Conselho de Ética, órgão responsável pela proteção do decoro e da dignidade legislativa, é outro retrato da desordem; de tantas idas e vindas, virou exemplo do descrédito parlamentar e da ética do faz-de-conta. Se isso não bastasse, vimos novamente a renúncia servir de válvula de escape.


Para um sistema que privilegia a impunidade reinante, a renúncia parlamentar não deixa de ser uma honrada forma covarde de dizer adeus sem a perda dos direitos políticos. E não é de se duvidar que, no próximo pleito, a saída pela porta de emergência seja premiada com o voto altista do eleitorado. Com isso, nossas instituições definham com uma assustadora conivência das urnas. A questão é: o que fazer?Ora, resta claro que o problema do Brasil não é a falta de dinheiro; recursos sobram até pelo ralo. O que nos falta é indignação democrática que faça e exija seriedade e decência daqueles que se querem políticos. A democracia não sobrevive sem a devida responsabilidade dos agentes públicos. E somos nós, cidadãos, que temos o ônus de cobrá-la. Estamos chegando a um momento limite da vida política brasileira: ou retomamos e fazemos valer as regras do sistema democrático-constitucional ou seremos tragados por um movimento político de dominação definitiva da coisa pública para fins privados e partidários. Talvez, quando nos dermos conta dos efeitos nefastos da nossa conivência inerte e passiva, já seja tarde para lutarmos pelos direitos da liberdade. Até ela – liberdade – já vai ter sido roubada.